Conteúdos

– A originalidade grega da filosofia: os pré-socráticos;
– A originalidade africana da filosofia: afrodiaspórico;
– A filosofia pluriversal: outras vozes da filosofia – para além da Europa e da África.

Objetivos

– Entender sobre as três teses da origem da filosofia: grega, africana e a filosofia pluriversal;
– Aprender sobre Antiguidade: período faraônico e período grego;
– Conhecer a filosofia afroperspectivista e pluriversal, ou outras vozes do pensamento;
– Debater e perceber a importância de conhecer a matriz africana da filosofia;
– Combater o epistemicídio ou racismo epistêmico da filosofia.

Previsão para aplicação:
8 aulas (30 min./aula)

Sugestão de aplicação para o ensino remoto:
Tais sugestões estão organizadas em tópicos, com uma breve explicação de cada recurso.

1) Jitsi Meet: É um sistema de código aberto e gratuito, que permite a criação e implementação de soluções seguras para videoconferências via Internet, com áudio, discagem, gravação e transmissão simultânea. Possui capacidade para até 200 pessoas, não há necessidade de criar uma conta, você pode acessar através do seu navegador ou fazer o download do aplicativo, disponível para Android e iOS.

Trabalhando com essa ferramenta, é possível:
– Compartilhar sua área de trabalho, apresentações e arquivos;
– Convidar usuários para uma videoconferência por meio de um URL simples e personalizado;
– Editar documentos simultaneamente, usando Etherpad (editor de texto on-line de código aberto);
– Trocar mensagens através do bate-papo integrado;
– Visualizar automaticamente o orador ativo ou escolher manualmente o participante que deseja ver na tela;
– Reproduzir um vídeo do YouTube para todos os participantes.

2) Gravação de videoaula usando o Power Point: O PPT, já tão utilizado no preparo das aulas, também permite a gravação de uma narração para os slides, que tanto nos auxiliam na explanação dos conteúdos. É possível habilitar a função de vídeo enquanto grava, assim, os alunos irão vê-lo em uma janelinha no canto direito da apresentação. O legal dessa ferramenta é que ela é bem simples e eficaz.

3) Envio de Podcast aos alunos: Talvez esse nome ainda seja novidade para você, mas Podcast nada mais é do que um áudio gravado (tipo esses que enviamos pelo WhatsApp). Podem ser utilizados para narrar uma história, para correção de atividades, revisar ou aprofundar os conteúdos. Para tanto, sugerimos o app Anchor, que pode ser baixado em seu celular, muito fácil e simples de utilizar.

4) Plataforma Google Classroom: O Classroom permite que você crie uma sala de aula virtual. Esta ação irá gerar um código que será enviado aos alunos, para que tenham acesso à sala de aula. Neste ambiente virtual, você poderá criar postagens de avisos, textos, slides do ppt, conteúdos, links de vídeos, roteiros de estudos, atividades, etc. É uma forma bem simples e eficaz de manter a comunicação com os alunos e postar as aulas gravadas, usando os recursos anteriormente mencionados. Confira também outros recursos oferecidos pelo Google, como a construção de formulários (Google Forms) para serem realizados pelos alunos.

Além dessas ferramentas, sugerimos aulas de até 30 minutos. Além disso, nem toda aula necessita de uma atividade avaliativa, para não sobrecarregar o aluno. As aulas virtuais também podem ser úteis para correção de exercícios e plantões de dúvidas.

1ª Etapa: A originalidade grega da filosofia

Muitos historiadores da filosofia consideram que sua origem é grega, e disseminam essa ideia nos mais diversos livros e materiais didáticos. Contudo, em 9 de janeiro de 2003, foi aprovada a Lei da LDB 10.639, atualizada em 2008 pela lei 11.645, que estabelece a obrigatoriedade das matrizes africanas e indígenas no currículo das Ciências Humanas. Por isso que a proposta desse plano de aula é trabalhar com as vozes que foram silenciadas por esse epistemicídio ou por esse racismo epistêmico que há na filosofia, mas sem excluir a tradição que foi imposta, pois ela será trabalhada no primeiro momento do plano. A ideia aqui não é excluir, mas incluir outras vertentes do pensamento.

Nesta primeira parte é interessante trabalhar de forma expositiva com a primeira tese da filosofia, que afirma sua originalidade grega. Para realizar a aula ao vivo, o(a) professor(a) poderá usar a plataforma Jitsi meet, ou compartilhar com os alunos uma aula previamente gravada, através do recurso disponível no Powerpoint (dois recursos descritos anteriormente neste plano). Em “Materiais Relacionados”, o(a) professor(a) irá encontrar sugestões didáticas que trabalham com a primeira tese. Ficará a critério do/da docente escolher qual obra poderá desenvolver essa concepção de originalidade; sugerimos um texto do filósofo brasileiro Sílvio Gallo.

Percebemos com o texto de Gallo que a origem da filosofia é grega. O autor assume nitidamente seu posicionamento, explicando quais foram os critérios para defender essa tese, assumindo três noções que garantem que essa área é criação exclusiva dos gregos. Mostra também que outros povos não fizeram filosofia da forma como conhecemos hoje, desenvolveram sabedorias ou teologias, devido suas influências dogmáticas ou religiosas.

O primeiro critério que Gallo usa para defender a primeira tese é que “a civilização grega antiga construiu uma cultura pluralista”, ou seja, foi um lugar que proporcionou o desenvolvimento do debate e do diferente – algo que não ocorreu em outro lugar do mundo. Dentro desse contexto existiam três povos criadores dessa cultura pluralista: os Jônios, os Eólios e os Dórios. Mesmo sendo apenas três, para o autor foi algo muito revolucionário para época.

O segundo critério foi que “os gregos eram estimulados a pensar por si mesmos”, para Gallo não é à toa que eles criaram a visão de sociedade atual, que é base de toda política do Ocidente – a República, a democracia e o poder descentralizado. São legados dos gregos que ainda hoje a sociedade se beneficia. Esse critério justifica a liberdade para pensar que outros lugares do planeta não puderam experimentar. O autor cita vários exemplos, como Egito, China e Pérsia, que viveram no mesmo momento que os gregos, mas a experiência do pensamento era outra, pois a forte influência religiosa controlava toda produção de saberes. Era algo ligado a um tipo de monopólio que somente os sacerdotes ou pessoas ligadas a esses grupos autoritários tinham acesso, isto é, era um lugar visado em contribuir sempre a favor do imperador ou para sua permanência no poder, que tinha como intuito o controle social. Enquanto isso, a Grécia era o lugar que estimulava mais o pensamento crítico, mesmo que de forma problemática, devido algumas perseguições que ocorreram.

O terceiro critério era que “os gregos gostavam de discutir e polemizar”, dentro de uma cultura pluralista e que incentiva a autonomia de pensar, esse ponto era uma consequência dos outros dois critérios que Gallo defende para justificar a originalidade grega. Ele fala de outro detalhe fundamental para compreender esse momento, que era a própria mitologia que tinha vários guerreiros famosos, como por exemplo Ulisses, Aquiles, Agamenon, Paris, Heitor, etc, todos esses guerreiros representam o sujeito que se opõe às autoridades. Eram traços que vinham de uma visão mitológica do mundo, onde esses personagens desafiaram as autoridades, inclusive os deuses. Vale lembrar a história de Ulisses, que desafiou Poseidon e por isso ficou perdido no mar durante anos. Com isso, o filósofo seria uma síntese do guerreiro, como uma outra figura famosa daquela época, o poeta ou Mestre da Verdade, como eles entendiam, conhecido como Aedo – alguém responsável por lembrar os mortais de suas obrigações perante o divino. O filósofo é essa síntese, alguém que tem essas duas características, ao mesmo tempo que desafia as autoridade através de seu pensamento, discutindo e polemizando todo debate, ele também tem como objetivo buscar a verdade. Um exemplo forte dessa síntese é o filósofo Sócrates. As obras de Platão mostram a atuação desse grego na sociedade ateniense em busca da verdade, ao mesmo tempo que problematizava os discursos dos seus adversários no campo do debate filosófico.

Deixo como sugestão que os(as) alunos(as) façam uma leitura do texto abaixo, buscando compreender a visão hegemônica da origem da filosofia. É importante mostrar essa tese, pois é a mais cobrada nos vestibulares e concursos públicos. Infelizmente, as outras duas teses ainda são desconhecidas ou ignoradas pelas equipes que produzem esses exames.

Fonte da imagem: timeline períodos da filosofia grega antiga

1. Texto filosófico: a filosofia e suas origens gregas, de Silvio Gallo

“Entre os séculos IX a.C. e VIII a.C., os gregos se expandiram para além da península grega, estabelecendo colônias importantes, como Éfeso, Mileto (situadas na Jônia, região sul da Ásia Menor), Eleia e Agrigento (na Sicília e sul da Itália, região conhecida como Magna Grécia). Foi em algumas dessas cidades, localizadas nas bordas do mundo grego, que surgiram os primeiros filósofos. Tales de Mileto (Jônia), Pitágoras de Samos (Jônia), Filolau de Crotona (Magna Grécia) e Heráclito de Éfeso (Jônia) são alguns exemplos.

Tales de Mileto (c. 625 a.C. – 556 a.C.) é considerado o primeiro filósofo. Nasceu na região da Jônia, hoje Turquia, e era apontado como um dos sete sábios da Grécia antiga. Foi o primeiro a afirmar que há um princípio universal do qual todas as coisas derivam (que os gregos chamavam de arkhé) e que este princípio seria o elemento água. Teve diversos seguidores na chamada Escola Jônica, os quais, embora concordassem com a ideia de arkhé, afirmavam ser ela relacionada a outro elemento que não a água.

Fundador de uma importante escola filosófica na Magna Grécia, com sede na cidade de Crotona, o filósofo e matemático Pitágoras de Samos (c. 570 a.C. – 497 a.C.) se tornou muito conhecido pela enunciação de um teorema matemático que recebeu seu nome, o teorema de Pitágoras. Em seu pensamento, defendia que o Universo (em grego, kósmos) era regido por princípios matemáticos, sendo o número o fundamento de todas as coisas.

Filolau de Crotona (c. 470 a.C. – 385 a.C.), filósofo e astrônomo que pertenceu à escola pitagórica defendia o número como a arkhé da natureza, bem como uma estrita conduta para a boa vida. No campo da astronomia, foi um dos primeiros a defender que a Terra está em movimento e não se encontra no centro do Universo, que seria ocupado por um “fogo central” sempre do lado oposto ao planeta e, por isso, não possível de ser visto pelos seres humanos. Em torno desse fogo central giravam a Terra e os demais corpos celestes.

Em Éfeso, o filósofo Heráclito (c. 535 a.C. – 475 a.C.) defendia que o princípio de todas as coisas não era o número, mas sim o fogo. Assim como percebemos neste elemento incessantes movimentos e transformações, na natureza também tudo se movimenta e se transforma, baseando-se na harmonia dos contrários (quente e frio, leve e pesado, sólido e líquido, seco e úmido, etc.), organizados pelo logos, isto é, o princípio racional de inteligibilidade, que tudo organiza e ordena para a composição do kósmos.

Essa nova prática de pensamento surgida na periferia do mundo grego migrou para as cidades da península grega, em especial Atenas – cidade dedicada a Palas Atena, deusa da sabedoria – um solo fértil para seu florescimento. É por isso que o filósofo contemporâneo Gilles Deleuze afirma que “os filósofos são estrangeiros, mas a filosofia é grega”.

É importante notar que a primeira palavra a surgir foi filósofo, que é aquele que pratica determinado tipo de investigação teórica, e só mais tarde apareceu a palavra filosofia, para designar a atividade deste investigador. Não se sabe ao certo quem inventou a palavra filósofo; alguns afirmam ter sido Pitágoras, outros afirmam ter sido Heráclito. Segundo a tradição, o primeiro filósofo teria sido um humilde homem grego que se recusava a ser reconhecido como sábio – isto é, que possui um saber –, preferindo chamar-se filósofo, quer dizer, um ‘amigo da sabedoria’, alguém que deseja ser sábio, mas ainda não o é. É uma posição semelhante à do filósofo grego Sócrates, que afirmou no século V a.C.: “Só sei que nada sei”, percebendo e admitindo a própria ignorância.

Mas por que o modo filosófico de pensar, com a recusa de verdades prontas e a elaboração de novos conceitos, surgiu na Grécia? Para entender isso, é importante recuar no tempo e conhecer um pouco a Grécia dos séculos VII a.C. e VI a.C. Assim, ficará mais fácil compreender quem eram e como viviam os gregos daquele tempo.

A civilização grega antiga construiu uma cultura pluralista. Em sua origem estão três povos (os jônios, os eólios e os dórios) que formaram uma sociedade unida pelo idioma e pelo culto aos deuses, mas que recebia influências de diversas culturas. Essa pluralidade foi um campo fértil para o desenvolvimento do teatro, da literatura, da arquitetura, da escultura e da filosofia.

Os gregos eram estimulados a pensar por si mesmos. A Grécia jamais formou um império centralizado. Em vez disso, organizou-se em cidades independentes, chamadas cidades-Estado, cada uma com seu próprio governo e suas próprias leis. A política era um assunto dos cidadãos.

Entre os povos da mesma época que formaram impérios, como os egípcios, os persas e os chineses, a situação era bem diferente. Em razão da forte influência religiosa, a produção de saberes era monopólio dos sacerdotes ou de pessoas ligadas a eles, sempre em favor do imperador e visando ao controle social e à permanência no poder.

As explicações eram determinadas pela visão religiosa e não podiam ser contestadas. Até mesmo o saber prático era controlado. A matemática é um exemplo. Entre os egípcios, os sacerdotes desenvolveram um conhecimento matemático destinado a registrar e controlar os estoques de alimentos do templo, bem como a construir pirâmides. Esse conhecimento era considerado segredo religioso, e apenas os sacerdotes poderiam conhecer.

Todo esse controle tendia a impedir que as pessoas pensassem por si mesmas. Na Grécia antiga, diferentemente, estimulava-se a discussão sobre os problemas e os rumos da cidade. Tanto é que foi na cidade-Estado de Atenas que se desenvolveu a forma democrática de governo. É verdade que a sociedade grega era escravagista e que só se consideravam cidadãos os homens maiores de idade, nascidos na cidade e proprietários de terras e de bens. Na Atenas dos séculos V a.C. e IV a.C., esse grupo correspondia no máximo a 10% da população total. Mas isso já era um número muito maior de pessoas dedicando-se à política do que nos impérios antigos.

Os gregos gostavam de discutir e polemizar. O gosto pelo debate e pela disputa é um traço da cultura grega. Ele vem da própria constituição do povo grego, um povo de guerreiros que muitas vezes teve de se unir para combater os inimigos. Os heróis da mitologia representam esse gosto pela luta e pelo triunfo, bem como as disputas esportivas que se seguiram com a criação dos Jogos Olímpicos. A disputa de ideias fazia parte desse espírito competitivo. Eram comuns, na Grécia antiga, os debates em praça pública. A filosofia é o resultado, portanto, da confluência e da interação de diferentes povos e culturas que encontram na pólis ateniense o terreno propício para o seu desenvolvimento intelectual.” (GALLO, 2015, p. 14)

Foto: Fabiano Bitencourt Monge

O texto pode ser disponibilizado aos alunos através da Plataforma Google Classroom.

2ª Etapa: A originalidade africana da filosofia

Nesta etapa será interessante continuar com o modelo de aula expositiva, usando um dos dois recursos sugeridos anteriormente, o(a) professor(a) precisará buscar uma bibliografia dentro da filosofia afroperspectivista. Deixo algumas sugestões nesse plano de aula para serem trabalhadas de acordo com o interesse de cada docente. Existem muitos autores desconhecidos pela tradição que vêm ganhando notoriedade, pois há um movimento crescente de resistência ao cânone bifurcado da filosofia, de seu aspecto tendencioso para manter o homem-branco-heterossexual-cis no poder ou como sujeito da episteme ou do conhecimento.

Para desenvolver a tese da originalidade africana há vários autores que defendem que a filosofia não é grega, entre eles, podemos citar Théophile Obenga, Molefi Kete Asante, Cheikh Anta Diop, George James, etc. Abordaremos o filósofo George James, que escreveu um livro impactante, O Legado Roubado: a filosofia grega é o roubo da filosofia egípcia.

James nos deixou algo muito forte a respeito da origem da filosofia, e que a academia não levou em consideração, pelo contrário, foi tachado como o pesquisador que escreveu coisas sem base científica. A partir de seu texto, é possível concluir que afirmar que a origem da filosofia é grega, não passa de suposições sem fundamentos. É como se os gregos aprendessem a filosofar sem influência nenhuma, pois a base de seus pensamentos críticos e conceituais não tem influência de outros povos. Nada sabemos sobre os professores que os filósofos Tales, Pitágoras, Heráclito e outros nomes famosos da filosofia antiga tiveram. Não é a toa que Martin Bernal, na obra “Black Athena”, abordou o desenvolvimento do modelo de educação ariana e eurocêntrica no mundo, desde o século XVIII existe um movimento para apagar outras vozes de pensamento, isso é o que o autor chama de projeto colonial, e que todos os filósofos da afroperspectividade vão criticar duramente.

James era latino americano, que nasceu na Guiana Inglesa, entretanto, não é conhecido na América. É como se esse continente não conhecesse a si mesmo, como nos diz Aldir Blanc, “O Brasil não conhece o Brasil”. De fato, aqui conhecemos filósofos dinamarqueses, alemães, britânicos, franceses, mas não conhecemos autores como Frantz Fanon, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento e o próprio George James, que escreveu um livro impactante para a filosofia, e que os cursos de filosofia desconhecem ou fingem desconhecer.

James nos mostrou algumas incoerências ao considerar a filosofia grega somente por causa dos livros didáticos da Antiguidade, chamados de “Peri Physis”, que confirmam o desenvolvimento filosófico na Grécia na era Arcaica, algo que parece valer mais do que os papiros dos egípcios e suas ideias a respeito do mundo. James nos traz muitas reflexões sobre a originalidade, principalmente no sentido de questionar o fato dos italianos e turcos não reivindicarem a posição de autores da filosofia também, para além dos gregos, pois como ele disse, porque sabem que não foram eles – os gregos, mas sim os egípcios. A filosofia é africana e não europeia. Vale mencionar outro autor da afroperspectividade, bastante conhecido também, chamado Cheikh Anta Diop, esse vai mais longe que James, ele afirma que a África não é somente a criadora da filosofia, mas também é o berço de toda humanidade, pois foi nas margens do Rio Nilo que tivemos os registros dos primeiros seres humanos, algo que aconteceu há mais de 150 mil anos. Infelizmente, muitas obras da filosofia afroperspectivista não têm tradução ainda para o português, exemplo disso é a obra de George James. Porém, há um trecho traduzido que pode ser usado em sala de aula, com o intuito de problematizar a originalidade grega e afirmar que a filosofia é africana. Vejamos o que James fala em seu livro, O Legado Roubado.

2. Texto filosófico: filosofia grega é filosofia egípcia roubada

“Os ensinamentos dos mistérios egípcios alcançaram outras terras muitos séculos antes de alcançar Atenas. De acordo com a história, Pitágoras depois de receber a sua formação no Egito, voltou à sua ilha natal, Samos, onde ele estabeleceu sua ordem por um curto tempo, após o qual ele migrou para Cróton (540 a.C.), no sul da Itália, onde sua ordem cresceu para enormes proporções, até sua expulsão definitiva daquele país. Também nos é dito que Thales (640 a.C.), que também tinha recebido a sua educação no Egito, e seus associados: Anaximandro e Anaxímenes eram nativos da Jônia, na Ásia Menor, a qual era um reduto das escolas dos mistérios egípcios, que eles levaram a cabo. (Sandford’s The Mediterrânea World, p. 195–205). Similarmente, somos informados de que Xenófanes (576 a.C.), Parmênides, Zeno e Melissus também eram nativos da Jônia e que eles migraram para Eleia na Itália e se estabeleceram e espalharam os ensinamentos dos Mistérios. Da mesma forma, somos informados de que Heráclito (530 a.C.), Empédocles, Anaxágoras e Demócrito também eram nativos da Jônia que estavam interessados em física. Daí, traçando o curso da então-chamada filosofia grega, nós encontramos que os estudantes Jônicos após a obtenção de sua educação a partir dos sacerdotes egípcios retornaram à sua terra natal, enquanto alguns deles migraram para diferentes partes da Itália, onde eles se estabeleceram.

Consequentemente, a história deixa claro que os vizinhos ao redor do Egito tinham todos se tornado familiarizados com os ensinamentos dos Mistérios Egípcios muitos séculos antes dos Atenienses, os quais em 399 a.C. condenaram Sócrates à morte (Zeller’s Hist. of Phil., p.112; 127; 170–172) e, posteriormente, levaram Platão e Aristóteles a fugir de Atenas para salvar suas vidas, porque filosofia era algo estranho e desconhecido para eles. Por esta mesma razão, seria de esperar tanto dos Jônicos ou dos Italianos exercerem a sua pior reivindicação de filosofia, uma vez que entrou em contato com eles muito antes do que fez com os atenienses, que foram sempre os seus maiores inimigos, até a conquista do Egito por Alexandre, que forneceu para Aristóteles o livre acesso à Biblioteca de Alexandria. Os Jônicos e Italianos não fizeram nenhuma tentativa de reivindicar a autoria da filosofia, porque eles estavam bem conscientes de que os egípcios eram os verdadeiros autores.

Por outro lado, após a morte de Aristóteles, seus alunos Atenienses, sem a autoridade do Estado, comprometeram-se a compilar uma história da filosofia, reconhecida na época como a Sophia ou Sabedoria dos Egípcios, que havia se tornado corrente e tradicional no mundo antigo, a qual compilação, porque foi produzida pelos alunos que haviam pertencido à escola de Aristóteles, a história posterior tem erroneamente chamado de filosofia grega, a despeito do fato de que os Gregos eram os seus maiores inimigos e perseguidores, e haviam persistentemente tratado-a como uma inovação estrangeira. Por esta razão, a então-chamada filosofia grega é filosofia egípcia roubada, a qual primeiro se espalhou para Jônia, seguindo depois para a Itália e depois para Atenas. E é preciso lembrar que, neste período remoto da história da Grécia, ou seja, de Thales até Aristóteles, 640 a.C. – 322 a.C., os Jônicos não eram cidadãos Gregos, mas a princípio subordinados egípcios e posteriores subordinados Persas.

Um breve esboço do antigo Império egípcio também deixará claro que a Ásia Menor ou Jônia era a antiga terra dos hititas, os quais não foram conhecidos por qualquer outro nome nos dias antigos. De acordo com Diodoro e Manetho, Sumo Sacerdote no Egito, duas colunas foram encontradas em Nysa Arábia; um da Deusa Ísis e outra do Deus Osíris, na última das quais o Deus declarava que ele tinha levado um exército para a Índia, para as fontes do Danúbio, e, tão longe quanto o oceano. Isto significa, naturalmente, que o Império Egípcio, em uma data muito precoce, incluía não apenas as ilhas do mar Egeu e Jônia, mas também se estendeu para as extremidades do Oriente. Nós também somos informados de que Senusert I, durante a 12ª dinastia (ou seja, cerca de 1900 a.C.) conquistou a inteira costa marítima da Índia, além do Ganges até o oceano oriental Ele também disse ter incluído as Cíclades e uma grande parte da Europa em suas conquistas. Em segundo lugar, as “Cartas de Amarna” encontradas nos escritórios do governo do Rei Egípcio, Iknaton, testemunham o fato, de que o Império Egípcio havia se estendido ao oeste da Ásia, Síria e Palestina, e que durante séculos o poder Egípcio havia sido supremo no mundo antigo. Isto foi na 18ª Dinastia, ou seja, cerca de 1500 a.C.

Também nos é dito que, durante o reinado de Tuthmosis III, o domínio do Egito estendia-se não apenas ao longo da costa da Palestina, mas também da Núbia até o Norte da Ásia. […] Como se tenta ler a história da filosofia grega, descobre-se uma ausência completa de informações essenciais sobre o início da vida e da formação dos então chamados filósofos Gregos, de Thales até Aristóteles. Nenhum escritor ou historiador professa saber nada sobre sua educação precoce. Tudo o que eles nos dizem sobre eles consiste em: a) uma data e local de nascimento duvidosos; b) as suas doutrinas; mas o mundo é deixado para pensar quem eram e de que fonte obtiveram sua educação precoce, e seria naturalmente de se esperar que homens que subiram para a posição de um professor, entre parentes, amigos e associados, seria bem conhecido, não somente por eles, mas por toda a comunidade.

Pelo contrário, homens que poderiam muito bem ser colocados entre os primeiros professores da história, que haviam crescido desde a infância até à idade adulta, e haviam ensinado alunos, são representados como desconhecidos, sendo sem quaisquer vestígios domésticos, sociais ou educacionais iniciais. Isto é inacreditável, e ainda é um fato que a história da filosofia grega apresentou ao mundo um número de homens cujas vidas ele sabe pouco ou nada sobre; mas espera que mundo os aceitem como os verdadeiros autores das doutrinas que são alegadas como sendo deles. Na ausência de provas essenciais, o mundo hesita em reconhecê-los como tal, porque a verdade de toda esta questão de filosofia grega aponta para uma direção muito diferente.

O livro sobre a natureza intitulado peri physeos foi o nome comum sob o qual estudantes gregos interessados no estudo da natureza escreveram. A cópia mais antiga, é dito, remonta ao século VI a.C. e é costume referir-se aos restantes de peri physeos como os Fragmentos. (William Turner’s History of Philosophy p. 62). Nós não acreditamos que os genuínos iniciados produziram o livro sobre a natureza, uma vez que isto era contrário às regras dos Mistérios Egípcios, em conexão com o qual as Escolas Filosóficas conduziam seu trabalho.

O Egito foi o centro do corpo da sabedoria antiga, e conhecimento, religioso, filosófico e científico difundido para outras terras através de estudante Iniciados. Tais ensinamentos permaneceram por gerações e séculos sob a forma de tradição, até a conquista do Egito por Alexandre o Grande, e o movimento de Aristóteles e sua escola para compilar ensinamento egípcio e reivindicá-lo como filosofia grega. (Ancient Mysteries by C. H. Vail p. 16.) Consequentemente, como uma fonte de autoridade de autorias, peri physeos, é de pouco valor, se for de algum, desde que a história menciona apenas quatro nomes como autores da mesma, ou seja, Anaximandro, Heráclito, Parmênides, Anaxágoras; e pede ao mundo para aceitar sua autoria da filosofia, porque Theophrastus, Sexto, Proclus e Simplício, da escola de Alexandria, é dito, preservaram pequenos restos dela (os Fragmentos). Se peri physeos é o critério para a autoria da filosofia grega, então, ele fica aquém de seu efeito por um longo caminho, uma vez que apenas quatro filósofos são alegados de terem escrito este livro e de terem restos de seu trabalho. De acordo com essa ideia todos os outros filósofos, que não conseguiram escrever peri physeos e ter os restos dela, também não conseguiram escrever.”

Texto “O Legado Roubado” – George G. M. James

Fonte das imagens: ”Legado Roubado” O polêmico livro de George G.M. James.

O texto pode ser disponibilizado aos alunos através da Plataforma Google Classroom.

3ª Etapa: A filosofia sem originalidade

Dando sequência ao modelo expositivo, utilizando um dos recursos previamente sugeridos, vale a pena usar como base para a aula o artigo de Renato Noguera, O Tabu da Filosofia, o qual apresenta as três teses abordadas neste plano. Juntamente com outro filósofo da afroperspectividade, Mogobe Ramose, nascido na África do Sul, Noguera assume uma visão que a filosofia não é africana e tampouco grega, ou seja, a filosofia é pluriversal, não tem certidão de nascimento. De acordo com Noguera, se trouxermos essa questão para o ensino no Brasil, será possível perceber um dogmatismo que é muito suspeito entre os(as) filósofos(as) brasileiros(as), nesse caso, os(as) principais autores(as) dos livros didáticos, a citar: Marilena Chauí, Silvio Gallo, Gilberto Cotrin, Maria Helena e Maria Arruda, etc. Existe algo de muito suspeito na narração filosófica desses(as) autores(as). Segundo Noguera, não há discussão para além da originalidade grega, senão pelo caminho do milagre grego ou pelas condições históricas, sociais e políticas que foram resultados para o nascimento da filosofia na Grécia antiga. Há somente essas duas respostas que defendem a Grécia como berço da filosofia.

O ensino está configurado na questão da originalidade entre a questão de ser pelo milagre ou pelos fatos sociais, políticos e históricos que ocorreram naquela região e tempo.

O que podemos perceber com a afroperspectividade é que não se trata de defender uma origem somente, pois isso seria repetir o erro que foi estabelecido pela cultura que colonizou os saberes e corpos do Ocidente, é preciso não cair nesse erro novamente. Isto é, seria perigoso criar uma visão de mundo afrocêntrica, porque isso seria uma forma de excluir outras vozes que estão para além da Europa e da África. Esses textos precisam chegar em outros lugares do mundo, como por exemplo na Ásia, na América e na Oceania. Abaixo, veremos um trecho do artigo escrito pelo filósofo brasileiro.

3. Texto filosófico – o tabu da filosofia, de Renato Noguera

“Nos livros didáticos de filosofia, o que existe de mais comum é dizer que o pensamento filosófico surgiu na Grécia por volta do século V antes da Era comum. Danilo Marcondes, autor de um dos mais celebrados livro de introdução à filosofia, diz que um “dos modos talvez mais simples e menos polêmico de se caracterizar a filosofia é através de sua História: forma de pensamento que nasceu na Grécia antiga, por volta do séc. VI a.C.”. Marilene Chauí recusa a tese do “milagre grego” e faz coro com a tradição: a filosofia nasceu na Grécia. Um dos livros didáticos de filosofia selecionados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) diz: “A filosofia nasceu na Grécia há mais de 25 séculos e constitui o ponto de partida do que se chama pensamento ocidental”. Silvio Gallo, provavelmente o autor de um dos trabalhos, merecidamente, mais elogiados no campo didático, partilha da opinião de Marcondes e Chauí, dizendo que na “Grécia antiga, em meio à intensa vida cultural, política e comercial das polis, nasce a filosofia, uma forma de pensar conceitualmente o mundo e responder a problemas”.

Para a maioria das filósofas e dos filósofos da atualidade, a filosofia não é considerada uma milagrosa invenção grega; mas não deixa de ser o resultado de condições históricas, sociais e políticas exclusivas da Grécia antiga. A filosofia teria berço e progenitor grego, fazendo de sua certidão um “documento” grego. Pois bem, é em relação a essas convergências entre as mais diversas formas de fazer e conceber filosofia que consideramos pertinente trazer uma característica que não é rara da própria filosofia. Ora, se para muita gente que se debruça sobre as pesquisas filosóficas não devemos deixar de reunir crítica, reflexão, argumentação, cuidado e rigor com conceitos e, sobretudo, problematizar, perguntar sem pudor algum pela consistência das ideias, por que não deveríamos indagar sobre a maternidade e paternidade gregas da filosofia? Pois bem, defendemos a hipótese de que se trata de um tabu. Ou melhor, do maior tabu da filosofia, isto é, uma proibição, um interdição que não tem bases bem fundamentadas. Afinal, um elenco de autoras e autores da filosofia, história e egiptologia tem apresentado vigorosos trabalhos que atestam justamente que a defesa do berço grego da filosofia só se justificaria pelo desconhecimentos dos textos egípcios anteriores aos gregos.

É importante dizer que, na atualidade, as diversas maneiras de fazer filosofia não deixam dúvida do caráter polissêmico do termo. Mas, sem dúvida, tudo leva a crer que mesmo que filósofas (os) pragmatistas discordem muito de filósofas (os) continentais, que tratam das mesmas questões por vias distintas e caminhos especulativos, nos dois casos, a filosofia ainda é entendida como atividade, exercício, aventura do espírito humano ou protocolos intelectuais que tem origem grega. O filósofo porto-riquenho Nelson Maldonado-Torres nos ajuda a entender essa posição através de uma leitura geopolítica em que denuncia a cumplicidade com a Cartografia imperial e com o projeto de colonização posto em curso pelo Ocidente. Maldonado-Torres identifica na leitura do filósofo Frantz Fanon (1925-1961) uma das mais contundentes críticas à mentalidade racista e colonial que demarca a formação da maioria das pessoas que se dedicam à filosofia no Ocidente. Nós estamos de acordo com Maldonado-Torres, é muito sintomático que a “filosofia” se recuse a examinar a interferência do espaço na produção de conhecimento, e o esquecimento da espacialidade e das disputas geopolíticas apenas reiteram e reforçam a Europa como lugar epistêmico privilegiado. Ou seja, a Europa, e, por tabela, a cultura Ocidental, é a referência fundamental para a produção de conhecimento filosófico. O racismo é um elemento importante nesse processo. De modo geral, se por racismo se pode entender um conjunto de práticas, dispositivos, ideologias que supõe que a divisão da humanidade por grupos étnico-raciais distintos envolve desqualificação de alguns diante de outros, os campos de negação são variados e recobrem as mais variadas dimensões. Por exemplo, se o racismo antinegro, em seu aspecto estético, recusa o glamour e a beleza de negras e de negros como boas personagens de campanhas publicitárias para vender perfume, margarina, carros e brinquedos, o racismo epistêmico recusa a validade científica, filosófica e cultural dos discursos de alguns grupos étnicos-raciais. Ora, essa dimensão do racismo que atravessa a produção filosófica e cultural dos discursos de alguns grupos étnico-raciais. Ora, essa dimensão do racismo que atravessa produção filosófica e a tese de negação dos textos da Antiguidade que não sejam gregos, tais como textos astecas, maias, chineses, indianos e africanos, dentre outros, é denominada “racismo epistêmico”. Essa é a dimensão do racismo que recusa a validade epistemológica e intelectual do conhecimento produzido por alguns povos, a saber, os não brancos, os não ocidentais. Isto está de acordo com aquilo o filósofo ganense Kwame Appiah diz: “‘filosofia’ é o rótulo de maior status no humanismo ocidental. Pretender-se com direito à filosofia é reivindicar o que há de mais importante, mais difícil e mais fundamental da tradição ocidental”. Ora, o Ocidente teria a filosofia como algo que o distingue fundamentalmente e decisivamente do resto do mundo. A filosofia é tomada, seja diretamente, explicitamente ou de modo tácito, seja como atividade acadêmica, aventura do espírito, exercício intelectual, análise crítica da Linguagem, reflexão sistemática, visão de mundo produtora de conceitos rigorosos ou modo de problematizar a realidade mais elaborado, sofisticado da humanidade, digno dos povos mais “civilizados”. Existe um pressuposto embutido: a dominação política, econômica e social que o Ocidente empreendeu por meio da invasão, colonização, trocas assimétricas e assujeitamento dos povos africanos, ameríndios, asiáticos e da Oceania vem sempre articulada com a dominação intelectual, com o estabelecimento de cânones acadêmicos ocidentais e com a recusa da validade epistêmica dos povos “colonizados”. Por isso, a tese de que a filosofia – essa área tão sofisticada que funciona como signo do refinamento e suprassumo da humanismo ocidental – poderia ter uma origem fora da Grécia é tão rechaçada. O que também é motivo para reunir as mais diferentes escolas, linhas e perspectivas (ocidentais) da filosofia numa aliança programática contra a emergência de “outras vozes” filosóficas, vozes que dizem que a filosofia não é exclusiva do Ocidente. A coalizão ocidental usa o epistemicídio, isto é, o assassinato das formas de conhecer, pensar e agir de outros povos, ou ainda, a recusa sistemática da validade dos argumentos, mesmo que esses sejam consistentes, em favor da blindagem de uma perspectiva intelectual. Afinal, existe uma contradição no discurso padrão da origem grega da filosofia. Como emergência local se articula com o caráter universal? Ora, se diz que a filosofia nasceu numa região do mundo, produto de um povo, de uma cultura e de uma sociedade, ainda que sob influência de outras culturas. Mas, ressaltando que esse saber trata de questões universais, o mais interessante é que a filosofia seria um caso único, isolado. Por exemplo, ninguém diria que a Música foi inventada por um determinado povo, num determinado momento da História da humanidade. No entanto, faz sentido afirmar que o samba nasceu no Brasil e que o primeiro registro do estilo foi gravado no início do séc. XX. Ou que a música de concerto era o gênero popular da Europa do século XVII ao XIX.

O problema, porém, está em confundir uma maneira de fazer filosofia com todas as possibilidades de exercício filosófico. A hipótese mais plausível é que a filosofia grega na Antiguidade foi uma das formas, dentre outras, de filosofar. Uma das chaves para essa leitura está na assunção de um modelo explicativo da História da humanidade na Antiguidade. A pluriversalidade é um modelo que reconhece a filosofia como a multiplicidade das filosofia particulares (em vez de eleger um modelo particular como o representante do universal). Afinal, se a Música é a multiplicidades de sons locais, de gêneros, subgêneros, ritmos e estilos que não tem um origem específica, um local privilegiado, por que a filosofia deveria ter? Não seria o caso de considerarmos que existem elementos geopolíticos que atravessam e constituem os discursos filosóficos, e que pretendem manter e reforçar uma posição conservadora? Uma postura que, assentada num modelo explicativo ariano, reforça o epistemicídio e pretende sustentar uma suposta neutralidade, que só corrobora para manter o status de que na Antiguidade só os gregos eram “capazes” de fazer filosofia. Ora, por vezes, os defensores dessa posição comungam com uma ingenuidade que isso não tem nenhuma consequência negativa. Talvez seja o caso de tomarmos um primeiro passo, enfrentar esse tabu e procurar os argumentos que nos dizem que a filosofia não nasceu na Grécia.” (NOGUERA, Renato. O tabu da filosofia. In: Filosofia. São Paulo. V. 1, p. 45, 2014.)

O texto pode ser disponibilizado aos alunos através da Plataforma Google Classroom.

4ª Etapa: Faça uma dissertação filosófica explicando as três teses da filosofia

Sugestão para a estrutura do texto:

1. Parágrafo/parte: introdução ao problema da originalidade da filosofia;
2. Parágrafo/parte: a originalidade grega;
3. Parágrafo/parte: a originalidade africana;
4. Parágrafo/parte: a filosofia sem originalidade em um local específico;
5. Parágrafo/parte: consideração final, colocar o posicionamento a respeito do problema. Qual das três teses você está de acordo?

OBS: O(A) docente poderá sugerir que a turma siga um método de anotações de cada etapa para fazer a dissertação no final. Sugerimos o método Cornell, algo simples e rápido para os(as) estudantes estruturarem a dissertação.

Seguem links de apoio: vídeo Método Cornell Para Estudo e Como fazer anotações usando o Método Cornell.

As dissertações podem ser entregues ao(à) professor(a) através da Plataforma Google Classroom.

Materiais Relacionados

1) Tese da originalidade grega

– ARANHA, M. L.; MARTINS, M. H. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 2016.
– CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia Antiga. São Paulo: Ática, 2002.
– CHAUÍ, Marilena. Iniciação à Filosofia. 3º ed. São Paulo: Ática, 2017.
– COTRIM, G.; FERNANDES, M. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2016.
– FIGUEIREDO, Vinicius de (org.). Filosofia: temas e percursos. 2º ed. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2016.
– GALLO, Silvio. Deleuze e a Educação. Belo Horizonte. Autêntica, 2017.
– GALLO, Sílvio. Filosofia: experiência do pensamento. 1º ed. São Paulo: Scipione, 2013.
– VASCONCELOS, José Antônio. Reflexões: Filosofia e cotidiano. 1º ed. São Paulo. SM, 2016.
– SAVIAN FILHO, Juvenal. Filosofia e filosofias: existência e sentidos. 1º ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.
– VERNANT, J. P. As origens do pensamento grego. Trad. Isis Borges B. Da Fonseca, Difel, 2002.

2) Tese da originalidade africana
– BERNAL, Martin. Black Athena: The Afrosiatic Roots of Classical Civilization. New Brunswick: Rutgers University Press, 2003.
– DIOP, Cheik Anta. A origem dos antigos egípcios. In: MOKHTAR, G. (Org). História Geral da África: África antiga. São Paulo: Cortez/Brasília: UNESCO, 2011.
– OBENGA, Theophile. La Philosophie africaine de la période pharaonique – 2780-330 avant notre ère, Paris, Harmattan, 1990.
– OBENGA, Theophilo. Egypt: Ancient History of African Philosophy. In: KWASI, Wiredu (ed.). A Companion to African Philosophy. Massachusetts: Blackwell Publishing, 2004.

3) Tese da filosofia pluriversal (sem certidão de nascimento)
– RAMOSE, Mogobe. Sobre a legitimidade e o estudo da filosofia africana. Tradução
Dirce Eleonora Nigro Solis, Rafael Medina Lopes e Roberta Ribeiro Cassiano. In:
Ensaios Filosóficos, Volume IV, Outubro de 2011. Acesso em: 25 de junho de 2020.
– NOGUERA, Renato. O tabu da filosofia. In: Filosofia. São Paulo. V. 1, p. 45, 2014.
– NOGUERA, RENATO. A ética da serenidade: O caminho da barca e a medida da balança na Filosofia de Amen-em-ope. Ensaios Filosóficos, Volume VIII, p.17, 2013. Acesso em: 29 de julho de 2019.
– MONGE, Fabiano Bitencourt. POR UM ENSINO MENOR DE FILOSOFIA: contra o modelo hegemônico da originalidade grega. Dissertação de Mestrado Profissional em Filosofia. Universidade Federal do ABC (UFABC), São Bernardo do Campo, 2020.

4) Outras referências da filosofia da afroperspectividade e da filosofia feminista (outras vozes)
– CASTRO, Clarissa Petry. REPENSANDO AS MULHERES E A FILOSOFIA: uma análise dos livros didáticos de Filosofia de Ensino Médio. Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Especialização. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 2016.

– NASCIMENTO, Wanderson Flor do. “Outras vozes” no ensino de Filosofia: o pensamento africano e afro-brasileiro. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação, v. 18, p. 74-89, 2012.
– NOGUERA, Renato. O Ensino de Filosofia e a Lei 10.639. Rio de Janeiro: editora Pallas, 2011.
– NOGUERA, Renato. Denegrindo a Filosofia: o pensamento como coreografia. Griot, v. 4, p. 1, 2011.
– NOGUERA, RENATO. Sociedades de controle e o grito de Eric Garner: o racismo antinegro do cogito da mercadoria na (através da) Filosofia de Deleuze. Revista Trágica, v. 9, p. 47, 2016.

5) Textos de filosofia africana e de filosofia diaspórica.

6) Vídeo Método Cornell Para Estudo.

7) Como fazer anotações usando o Método Cornell.

Arquivos anexados

  1. Plano de aula – As três teses da origem da filosofia

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