Conteúdos

Este roteiro de estudos apresenta uma leitura de “A revolução dos bichos”, de George Orwell, buscando compreender a obra não apenas como uma fábula sobre animais, mas como uma importante reflexão sobre política, poder e comportamento humano. A partir da trajetória dos animais da Granja do Solar, serão analisados o contexto histórico em que a obra foi produzida, seus principais personagens e as relações que podem ser estabelecidas entre a narrativa e acontecimentos políticos do século XX. Além disso, o roteiro propõe uma reflexão sobre a atualidade da obra, especialmente diante dos perigos relacionados à concentração de poder, à manipulação da informação, à alteração da verdade e à transformação de ideais coletivos em instrumentos de dominação. A leitura também permite pensar sobre a importância da participação política consciente, da análise crítica das informações e do exercício responsável da cidadania.

Objetivos

  • Compreender o enredo, os personagens e as principais características da obra “A revolução dos bichos”;
  • Conhecer aspectos da trajetória de George Orwell e do contexto histórico relacionado à produção da obra;
  • Identificar as críticas políticas presentes na fábula e compreender as relações estabelecidas entre seus personagens e acontecimentos históricos;
  • Refletir sobre as relações entre poder, propaganda, manipulação da verdade, desigualdade e corrupção; e
  • Relacionar a leitura da obra ao exercício da cidadania e à participação política responsável no contexto brasileiro contemporâneo.

Conteúdos / Objetos do conhecimento:

  • “A revolução dos bichos”, de George Orwell;
  • Fábula, alegoria e sátira política;
  • George Orwell e o contexto histórico da obra;
  • Revolução Russa, stalinismo e totalitarismo;
  • Personagens e suas representações políticas;
  • Poder, propaganda e manipulação da informação;
  • Corrupção e concentração de poder;
  • Democracia, cidadania e participação política; e
  • Eleições no Brasil.

Palavras-chave:

George Orwell. “A revolução dos bichos”. Fábula. Política. Poder. Totalitarismo. Propaganda. Manipulação da verdade. Democracia. Cidadania.

Proposta de trabalho:

Este roteiro de estudos traz uma leitura orientada de “A revolução dos bichos”, obra publicada em 1945 e  marcada por uma crítica ao totalitarismo e aos mecanismos de concentração e manutenção do poder. Ao longo das etapas, vamos conhecer a história e seus personagens, compreender as referências históricas presentes na narrativa e, principalmente, refletir sobre questões que continuam presentes na sociedade contemporânea.

A proposta é perceber que uma obra literária escrita há mais de 80 anos pode continuar provocando perguntas importantes sobre o mundo em que vivemos.

Bons estudos!

1ª Etapa: Conhecendo o autor e o contexto histórico da obra

Para compreender uma obra literária, é importante conhecer não apenas sua história, mas também o período em que ela foi produzida e algumas experiências vividas por seu autor.

George Orwell nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia, quando o território ainda fazia parte do Império Britânico. Seu nome verdadeiro era Eric Arthur Blair. Durante a juventude, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, experiência que contribuiu para sua percepção crítica sobre o imperialismo e as relações de poder.

Orwell também participou da Guerra Civil Espanhola, em 1937, experiência que teve grande importância em sua formação política. Durante esse conflito, entrou em contato direto com disputas internas entre grupos de esquerda e com práticas autoritárias que posteriormente influenciaram sua produção literária.

A obra “A revolução dos bichos” foi escrita durante a Segunda Guerra Mundial e publicada na Inglaterra em 1945. A narrativa apresenta uma crítica ao totalitarismo, tendo sido bastante direcionada ao stalinismo, regime associado ao governo de Josef Stalin na União Soviética, especialmente aos mecanismos de repressão, propaganda, perseguição aos opositores e concentração de poder.

A obra, portanto, não deve ser entendida simplesmente como uma crítica genérica a uma determinada ideologia. Orwell utiliza a história dos animais para discutir o que pode acontecer quando uma sociedade deposita poder excessivo nas mãos de poucos e deixa de questionar aqueles que passam a controlar as decisões coletivas.

2ª Etapa: Conhecendo a história e os personagens

É possível ter acesso à íntegra da obra por meio do portal MEC Livros.

Acesse aqui: “A revolução dos bichos” – George Orwell
Acesso em: 25 de agosto de 2026.

A narrativa se passa na Granja do Solar, pertencente ao Sr. Jones. Insatisfeitos com as condições de exploração em que vivem, os animais passam a sonhar com uma sociedade em que todos sejam livres e tenham os mesmos direitos.

O Velho Major, um porco respeitado pelos demais animais, apresenta a ideia de que os bichos poderiam viver sem a exploração dos seres humanos. Após sua morte, suas ideias inspiram uma revolta, e os animais conseguem expulsar o Sr. Jones e assumir o controle da granja.

No início, parece que a revolução produziu exatamente aquilo que os animais desejavam. São estabelecidos princípios de igualdade e liberdade, representados pelos Sete Mandamentos escritos na parede do celeiro.

Entretanto, aos poucos, os porcos assumem posições privilegiadas. Napoleão concentra cada vez mais poder, enquanto Garganta utiliza sua capacidade de persuasão para justificar as decisões do líder. Bola-de-Neve, que inicialmente participa da liderança da revolução, é expulso e passa a ser apresentado como responsável por todos os problemas da Granja.

Enquanto isso, os demais animais trabalham cada vez mais e recebem cada vez menos. Os mandamentos são modificados gradualmente, sempre para justificar os privilégios daqueles que estão no poder. Ao final, os porcos passam a se comportar como os próprios seres humanos que haviam sido expulsos da granja.

Principais personagens

Sr. Jones: proprietário da Granja do Solar. Representa o poder anterior à revolução e a exploração dos animais.

Velho Major: porco que apresenta aos animais a ideia de uma sociedade livre da exploração. Suas ideias dão origem à revolução.

Bola-de-Neve: um dos líderes da revolução. Defende projetos para transformar a Granja, mas acaba expulso por Napoleão e posteriormente é transformado em inimigo e responsável pelos problemas da comunidade.

Napoleão: assume progressivamente o controle da Granja e concentra o poder. Representa o líder autoritário que utiliza diferentes mecanismos para permanecer no comando.

Garganta: porco responsável por explicar e justificar as decisões de Napoleão. Sua atuação mostra a força da propaganda e da manipulação da linguagem.

Sansão: cavalo extremamente trabalhador e leal. Representa aqueles que trabalham intensamente e acreditam que o esforço individual será suficiente para melhorar a sociedade, mesmo quando estão sendo explorados.

Benjamin: burro desconfiado e observador. Percebe que as mudanças não significam necessariamente melhoria para todos, mas permanece, durante boa parte da narrativa, sem agir para modificar a situação.

As ovelhas: representam a repetição automática de palavras de ordem. Sua atuação demonstra como a repetição constante de uma mensagem pode dificultar o pensamento crítico.

Os cães: são utilizados por Napoleão como instrumento de força e intimidação, funcionando como mecanismo de proteção do poder e repressão dos opositores.

3ª Etapa: A fábula como crítica política

Embora apresente animais que falam, trabalham, discutem e tomam decisões políticas, “A revolução dos bichos” não é apenas uma história infantil sobre uma fazenda. Trata-se de uma fábula alegórica e de uma sátira política, na qual acontecimentos e personagens podem ser relacionados à história da Revolução Russa e à consolidação do regime de Stalin.

A Revolução Russa de 1917 derrubou o regime czarista e abriu caminho para a formação de um novo modelo político. Anos depois, porém, a disputa pelo poder dentro do próprio movimento revolucionário contribuiu para a ascensão de Stalin e para a formação de um regime marcado pela concentração de poder, repressão e controle da informação.

A principal pergunta proposta pela narrativa é, portanto, bastante atual: como uma revolução que nasce defendendo liberdade e igualdade pode terminar produzindo uma nova forma de opressão?

4ª Etapa: Poder, manipulação da verdade e natureza humana

Um dos aspectos mais importantes da obra é a transformação gradual dos ideais que deram origem à revolução.

No início, os animais defendem a igualdade. Com o passar do tempo, entretanto, os porcos passam a receber privilégios. Para que essa desigualdade seja aceita, é necessário modificar a maneira como os acontecimentos são apresentados aos demais animais.

É nesse ponto que a atuação de Garganta se torna especialmente importante. Ele utiliza números, argumentos aparentemente lógicos e versões convenientes dos acontecimentos para convencer os animais de que aquilo que estão vivendo é melhor do que aquilo que existia antes.

A manipulação da verdade aparece também na transformação dos Sete Mandamentos. O que antes era apresentado como uma regra absoluta passa a ser alterado pouco a pouco, até que os princípios originais praticamente desapareçam.

Orwell mostra, assim, que o controle do poder não depende apenas da força. Ele também depende da capacidade de controlar aquilo que as pessoas acreditam ser verdadeiro.

Outro elemento importante é a concentração de poder. Napoleão elimina gradualmente os mecanismos de participação e passa a decidir sozinho. Seus opositores são tratados como inimigos, e o medo impede que os demais animais questionem suas decisões.

A obra também apresenta uma reflexão sobre a natureza humana. O problema não está apenas em um indivíduo que se torna autoritário, mas nas condições que permitem que alguém concentre poder, seja protegido pela força, controle as informações e encontre uma sociedade incapaz ou impedida de questioná-lo.

A fábula, portanto, alerta para um risco que ultrapassa o contexto histórico do stalinismo: quando o poder deixa de ser controlado, aqueles que deveriam servir à coletividade podem passar a utilizar a coletividade para servir aos seus próprios interesses.

Isso ajuda a explicar a atualidade da obra. A corrupção do poder não acontece necessariamente de maneira repentina. Muitas vezes, ela ocorre por pequenas concessões: uma regra modificada, uma informação omitida, um privilégio aceito, um adversário transformado em inimigo, uma mentira repetida tantas vezes que passa a parecer verdadeira.

5ª Etapa: “A revolução dos bichos” e as eleições brasileiras

A leitura de Orwell ganha uma dimensão especialmente significativa quando refletimos sobre as eleições brasileiras. Por meio delas, são periodicamente escolhidos presidente e vice-presidente, governadores e vice-governadores, prefeitos e vice-prefeitos, senadores, deputados federais, deputados estaduais e vereadores.

Relacionar “A revolução dos bichos” às eleições brasileiras não significa comparar diretamente personagens da obra com candidatos ou partidos políticos, até mesmo porque o totalitarismo independe de ideologia e/ou espectro político. A contribuição da literatura está em oferecer instrumentos para pensar sobre o funcionamento da política e sobre o comportamento dos próprios cidadãos.

Durante uma eleição, diferentes candidatos e grupos apresentam propostas, argumentos e interpretações sobre a realidade. Nesse contexto, torna-se fundamental perguntar:

  • A informação apresentada é verdadeira?
  • Qual é a fonte dessa informação?
  • Há dados que comprovem a afirmação?
  • O argumento apresenta uma proposta concreta ou apenas procura despertar medo, raiva ou indignação?
  • Uma mensagem está sendo repetida tantas vezes que parece verdadeira apenas por causa da repetição?

Essas perguntas dialogam diretamente com a atuação de Garganta na obra. O personagem mostra como a linguagem pode ser utilizada não para esclarecer, mas para convencer. Em uma sociedade democrática, entretanto, a capacidade de questionar informações é essencial para que o cidadão possa tomar decisões de maneira consciente.

Esse cuidado se torna ainda mais importante diante do uso das redes sociais e da circulação rápida de conteúdos durante o período eleitoral. O próprio Tribunal Superior Eleitoral destaca a necessidade de atenção à desinformação e disponibiliza conteúdos destinados a ajudar o eleitorado a diferenciar informações verdadeiras de informações falsas.

A leitura de Orwell também permite refletir sobre outro aspecto fundamental das eleições: o poder não pertence definitivamente a quem o exerce. Em uma democracia, o poder político deve estar submetido às instituições, às leis e à participação dos cidadãos.

Por isso, votar não significa simplesmente escolher um nome. Significa analisar propostas, conhecer candidatos, compreender o funcionamento das instituições e acompanhar a atuação daqueles que foram eleitos.

6ª Etapa: Literatura, educação política e exercício da cidadania

A atualidade de “A revolução dos bichos” também pode ser relacionada a uma mudança recente na legislação educacional brasileira.

A Lei nº 15.468, de 13 de julho de 2026, alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional para estabelecer que “educação política e direitos da cidadania” constituirá componente curricular obrigatório da educação básica, no âmbito do estudo da realidade social e política.

A inclusão desse componente reforça a importância de formar estudantes capazes de compreender a sociedade em que vivem, conhecer seus direitos e deveres e participar de maneira consciente da vida democrática.

Nesse sentido, a literatura pode desempenhar um papel importante. Uma obra como “A revolução dos bichos” não apresenta uma aula de política, mas oferece situações que permitem discutir conceitos políticos de maneira concreta.

Ao acompanhar a transformação da Granja do Solar, o leitor pode refletir sobre questões como:

  • O que acontece quando poucos indivíduos concentram o poder?
  • Por que as pessoas podem aceitar privilégios e desigualdades mesmo quando inicialmente defendiam a igualdade?
  • Como a propaganda pode influenciar a percepção da realidade?
  • Por que é importante preservar a liberdade de expressão e o direito à informação?
  • O que pode acontecer quando os cidadãos deixam de questionar aqueles que exercem o poder?
  • Qual é o papel do cidadão na preservação da democracia?
  • Como a educação pode contribuir para que as pessoas façam escolhas políticas mais conscientes?

A obra de Orwell mostra que a democracia não depende apenas da existência de eleições. Ela também exige cidadãos capazes de pensar criticamente, questionar informações, respeitar opiniões diferentes, conhecer seus direitos e acompanhar aqueles que exercem funções públicas.

Por isso, ler “A revolução dos bichos” é uma oportunidade para compreender que a participação política não termina no momento em que o voto é depositado na urna. A cidadania pressupõe acompanhamento, participação, responsabilidade e disposição para defender as instituições e os direitos que garantem a vida democrática.

7ª Etapa: Considerações finais

Ao final da leitura, é possível perceber que “A revolução dos bichos” continua atual porque, infelizmente, o problema apresentado por Orwell não pertence exclusivamente ao passado.

A obra nasceu como uma crítica ao totalitarismo e traz uma reflexão ampla. Ela mostra como ideais podem ser distorcidos, como a linguagem pode ser utilizada para manipular, como a verdade pode ser modificada em benefício de quem controla o poder e como a concentração de autoridade pode abrir espaço para o autoritarismo e a corrupção.

A frase que encerra a transformação da Granja (quando os animais já não conseguem distinguir os porcos dos seres humanos) representa o ponto máximo dessa crítica: aqueles que chegaram ao poder prometendo construir uma sociedade diferente terminam reproduzindo os mesmos comportamentos que haviam condenado.

A grande questão deixada por Orwell, portanto, não é apenas saber quem está no poder, mas compreender como o poder é exercido e quais mecanismos existem para controlá-lo.

Em uma democracia, essa responsabilidade não pertence somente aos governantes, mas também aos cidadãos.

A leitura da obra pode servir como um convite para que cada cidadão compreenda que o voto exige conhecimento, reflexão e responsabilidade. Mais do que escolher representantes, participar de uma eleição significa contribuir para definir os caminhos que a sociedade seguirá.

A literatura, nesse sentido, ajuda a formar cidadãos porque nos ensina a olhar para a realidade com mais atenção. E talvez essa seja uma das maiores forças de uma obra como “A revolução dos bichos”: depois de fechar o livro, continuamos refletindo e reconhecendo seus mecanismos.

Bons estudos!

Roteiro de estudos elaborado pela Professora Daniela Leite Nunes.

Coordenação Pedagógica: Prof.ª Dr.ª Aline Bitencourt Monge.

Crédito da imagem: id-work – Getty Images

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