Desde janeiro de 2024, a rede pública paulista passou a utilizar em todas as escolas ao menos oito plataformas para o ensino de disciplinas e atividades discentes, como redação e leitura. Também passou a oferecer slides didáticos para serem utilizados pelos professores em sala de aula, pré-produzidos pela Secretaria da Educação em conjunto com a iniciativa privada, além de controlar a frequência de alunos e docentes nos dispositivos por meio do programa Escola Total.
Para completar, o uso das plataformas tornou-se critério de avaliação de desempenho de professores e também de diretores, conforme resolução emitida pela Secretaria.
Segundo o Grupo de Atuação Especial de Educação do Ministério Público de São Paulo (Geduc/MP-SP), ao menos seis diretores foram afastados ou tiveram a nomeação revogada por não atingirem os critérios estabelecidos.
“Embora as plataformas não sejam obrigatórias na teoria, sem um documento de orientação legal, na prática elas são exigidas e cobradas, estando conectadas a um sistema maior de avaliação que promove sanções e bonificações para professores e diretores de acordo com o desempenho”, explica o sociólogo e mestre em educação Ricardo Normanha.
O impacto dessas tecnologias no cotidiano dos professores é o tema da pesquisa de pós-doutorado dele pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na qual analisa documentos da secretaria de educação e entrevista profissionais da rede.
Normanha relata que as plataformas foram implantadas por iniciativa do secretário de Educação do estado, Renato Feder, e reproduzem medidas adotadas durante sua passagem pela mesma pasta no governo do Paraná (2019–2022). “Os professores não foram ouvidos”, contextualiza o pesquisador.
Para ele, esse conjunto de ferramentas trouxe novas camadas de precarização do trabalho docente. “Há perda de autonomia, redução da liberdade de ensino e esvaziamento do caráter intelectual da docência, que passa a ser mais operacional — restrita, muitas vezes, à simples reprodução de slides”, complementa. Os resultados preliminares da pesquisa foram publicados em artigo.
Como funcionam as plataformas?
Em um dia comum de aula, o uso das plataformas pelo professor começa com um dispositivo para registrar a chamada dos alunos em tempo real, muitas vezes realizado com celular e internet pessoais do docente.
“Depois, ele acessa o Centro de Mídias, onde encontra conteúdos em slides já formatados. Há pouco espaço para inserir novos itens; o material é extenso, e os slides trazem sugestões de tempo, em minutos, para trabalhar cada tópico. Após a aula, o professor precisa registrar na plataforma o conteúdo trabalhado. Nesse momento, outro aplicativo, o Tarefa SP, libera automaticamente atividades para os estudantes”, descreve.
Língua portuguesa e matemática possuem plataformas específicas. “A redação é feita em outra ferramenta, com correção por inteligência artificial. A leitura também é acompanhada por uma plataforma que registra quantos livros cada aluno leu”, conta o pesquisador.
Para completar, tudo é integrado ao Super BI, uma plataforma de gestão corporativa usada para controle de metas. “Há ainda escolas que expõem o desempenho dos professores em painéis físicos, na sala dos docentes”, revela.
MP pede descontinuidade
Em nota técnica de outubro de 2025, o Geduc solicitou a suspensão do uso da plataforma. Um dos motivos apontados é a desigualdade de acesso devido à escassez de equipamentos e de redes de internet nas escolas estaduais.
“É comum o uso compartilhado dos dispositivos pelos alunos, o que reduz o tempo disponível para cada estudante; ou o uso de celulares pessoais deles na escola, apesar da proibição. O professor ainda perde tempo de aula tentando se conectar e acessar todos esses sistemas”, revela o pesquisador.
“Ao final, o docente precisa cumprir metas sem que a secretaria ofereça condições materiais adequadas, o que faz com que esteja sempre correndo atrás do prejuízo”, destaca.
Normanha também alerta que as plataformas retiram do professor a possibilidade de adaptar o material à realidade das turmas e dos estudantes, ponto também mencionado pelo MP.
“Por exemplo, se o professor identifica que a turma se interessa por batalhas de rima, torna-se mais difícil adaptar as atividades, pois o sistema é fechado. Os slides limitam estratégias para tornar os conteúdos mais atrativos e padronizam o tempo de aula, desconsiderando diferentes ritmos de aprendizagem”, afirma.
Para o MP-SP, a imposição de plataformas padronizadas nas escolas estaduais viola princípios constitucionais, como liberdade de cátedra, gestão democrática, autonomia escolar e proteção de crianças e adolescentes, além de desconsiderar os projetos político-pedagógicos das unidades.
Pesquisas identificam rejeição
Segundo Normanha, alunos passaram a utilizar equipamentos que burlam as plataformas e respondem automaticamente às tarefas.
“Professores e gestores, por exemplo, reservam um período da semana apenas para cumprir as metas, em vez de utilizar as plataformas diariamente, como orientado, e usam o restante do tempo para ensinar com metodologias mais personalizadas.”
As percepções dos professores coletadas por Normanha vão ao encontro de uma pesquisa online de 23 perguntas realizada pelo MP-SP em julho de 2025 e respondida de forma anônima por 29.847 profissionais da rede estadual de ensino, entre professores efetivos, temporários, diretores e supervisores.
Segundo o MP, aproximadamente 93% dos entrevistados consideram que o uso das plataformas é obrigatório; 62% afirmam que a utilização de outros materiais e atividades culturais foi reduzido para atender às plataformas; e 97,8% avaliam que as aulas ficaram mais curtas após a introdução desse tipo de tecnologia.
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Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images