Porto Alegre – Optar pela utilização de softwares livres nos ambientes de aprendizagem é uma mudança não somente de atitude, mas principalmente de cultura e de posicionamento dos professores frente aos seus  alunos. Chegar numa sala de aula e anunciar que, a partir daquele instante, ações que envolvam o computador serão sempre realizadas com softwares que podem ser copiados, modificados, distribuídos e usados sem restrições por terceiros causa estranheza entre aqueles alunos que, desde que tiveram contato com a informática, lidam com sistemas que não podem ser modificados, a exemplo do Windows.

Uma corrente cada vez mais robusta de educadores defende o uso desses softwares livres por considerar que eles fazem do usuário um produtor, fortalecem o processo de ensino-aprendizagem nos diferentes níveis escolares e proporcionam a apropriação coletiva de todo o material desenvolvido.

Administrador de sistemas e coordenador da Fundec (Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico e Políticas Sociais de Duque de Caxias), Alessandro de Souza e Silva tem hoje para contar o que ele classifica como “uma história de sucesso”, mas, ainda assim, afirma: “o preconceito diante do software livre é imenso, eu consigo enxergar isso quando alguns alunos desistem da inscrição em nossos cursos ao tomarem conhecimento de que não vão utilizar softwares proprietários amplamente difundidos no mercado.”

Apesar de não ter êxito em 100% dos casos em que tenta evitar a desistência, Alessandro de Souza e Silva já contabiliza mais de 50 mil alunos formados nos CAEPs (Centros Avançados de Estudos Profissionalizantes), unidades montadas para oferecer cursos gratuitos e que não trabalham com softwares proprietários. Devido a esse número relevante, ele esteve no 10º Fórum Internacional do Software Livre para relatar a experiência no município fluminense que conta com quase 1 milhão de habitantes. De início, entregou: “Em 2005, quando começamos a atuar com Linux e com softwares educacionais que permitiam programação, 9.360 alunos frequentaram o curso completo promovido pela Fundec, apesar de não termos conseguido naquele ano qualquer aproximação com a secretaria de educação”. Em seguida, acrescentou: “Hoje é diferente, já tenho um ‘link’ [com a Secretaria de Educação], pois as pessoas entenderam que softwares livres eliminam gastos com pagamentos de licenças e podem ser materiais muito qualificados”, diz.

Quanto aos alunos, o analista diz que o preconceito começa a se esvair quando eles percebem que, além de terem uma postura mais ativa diante da tecnologia, estão bem menos vulneráveis a ataques de vírus. “O fato de entidades já reconhecerem os softwares livres como uma solução renovadora, e de algumas delas renomadas, como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil já solicitarem, em seus editais de concurso, conhecimento sobre eles, também é importante”, destaca Alessandro. A Fundec, com orçamento anual que gira em torno de R$ 14 milhões, utiliza os programas do projeto K-Eduque com os seus alunos, os quais têm a partir de 14 anos.

A utilização nas salas de aula, porém, pode começar mais cedo, já que há programas, como o Gcompris, que focam um público mais novo. “Independentemente do programa que se use, o que precisamos é ampliar a cultura da produção/interação e a repulsa ao software que não permite criação e liberdade aos estudantes, desenvolvedores e professores”, defende Mark Suman, diretor da Fundução Mozilla e ativista da comunidade tecnológica há quase duas décadas.

A Mozilla, que tem como produto mais famoso o navegador Firefox, defende há 11 anos a criação de uma classe mundial de software de fonte aberta. No Fórum Internacional do Software Livre, Mark Surman exemplificou ações: “o Firefox 3.5, por exemplo, tem vídeos com padrões abertos, que permitem que estes sejam retirados de sua página de origem e colocados como um elemento em outra página qualquer.”

Conheça:

 

O Wiki da Fundação Mozilla para a Educação (em inglês)
Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico e Políticas Sociais de Duque de Caxias

 

Confira um vídeo sobre a história do software livre

 

https://youtu.be/5EJCbj2yCws

 

Escola experimenta migração

 

Pedagoga agora dedicada exclusivamente a pesquisas, Vanessa dos Santos Nogueira lecionou, até o ano passado, na escola Marista Santa Marta, localizada no município de Santa Maria (RS). Deixou a escola após finalizar a migração do software proprietário para o software livre, um projeto que ela abraçou, levou à instituição e agora integra parte da sua pesquisa.

No 10º Fórum Internacional do Software Livre, a pedagoga revelou alguns pontos que considerou fundamentais para a que o processo tivesse êxito no ambiente escolar. “Oferecemos aos professores a instalação do sistema Linux em suas casas, pois não adianta você fazer um trabalho na escola e, em casa, na preparação de provas ou exercícios, continuar atuando da mesma forma”, diz.

Para inserir os alunos na realidade do software livre, o assunto foi tratado em sala de diferentes formas. “Utilizamos a própria discriminação com o sistema Linux, ainda existente, para fazer os alunos entenderem o que significava aquela mudança. Foi trabalhado, por exemplo, na aula de filosofia, o motivo de o pinguim não poder ir à escola”, relata Vanessa. Pinguim é o animal símbolo do sistema operacional Linux.

Conheça o blog da pedagoga Wanessa

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