Quando o professor Fábio Ferreira começou a usar o game Tribal Wars em suas aulas de matemática de ensino médio, os alunos, acostumados a métodos tradicionais de ensino, estranharam. “Muitos deles repudiaram  a iniciativa porque achavam que games não podiam ajudar em nada. Mas agora a maioria acha interessante”, disse o professor, que dá aulas na Escola Padre Zuzinha, da rede estadual de Pernambuco, na cidade de Santa Cruz do Capibaribe.

 

Tribal Wars

 

O Tribal Wars é um jogo de estratégia em tempo real online, parecido a outros jogos de estratégia como o Ikariam (Saiba mais em Experimente e  Especial Educadores). Nele, o objetivo é fazer uma aldeia evoluir, formar guerreiros e conquistar poder e glória. Os alunos do professor Fábio Ferreira o jogam durante o aprendizado de funções: “primeiro eu apresento o conceito, depois, eles jogam. Então, eu começo a mostrar e sugerir coisas: ‘vocês estão vendo aí algo de função?’ Então eu volto a trabalhar o conceito para que eles vejam essa relação”, explica.

A idéia surgiu quando a escola descobriu, por meio de um levantamento, que muitos alunos faltavam porque estavam jogando em suas casas ou em lan houses. Fábio Ferreira resolveu, então, buscar nos jogos uma maneira de melhorar a aprendizagem. Dentre as razões que o fizeram escolher o Tribal Wars, está o fato de que se trata de um jogo online e gratuito, com uso viável, portanto, em uma escola pública.

Ele aponta, ainda, que o jogo também poderia ser usado no aprendizado de geometria, história e geografia. Para ele, “não pode jogar o jogo por jogar. Ele funciona como uma ferramenta para ajudar a compreender o conceito de maneira divertida e tornar a aula mais dinâmica. Também é importante lembrar que ele não vai ser usado em todas as aulas, nem vai ser responsável por ensinar todo o conteúdo, só parte”. Outra idéia do professor para quem quer usar games comerciais em suas aulas é descobrir que conceitos podem ser vistos nos jogos que eles já gostam de jogar.

Jogos para refletir
Também para Edson P. Pfutzenreuter, professor do Senac e da Unicamp, não adianta repudiar os jogos comerciais. “O fato é que a criança joga e não cabe discutir se é legal ou não”, diz. Segundo ele, as pessoas têm mania de criticar tudo sob o ponto de vista conteudista. “Elas dizem: ‘ai, esse jogo tem violência, logo, estimula a violência’. As coisas não são tão diretas assim, isso reduz o ser humano”, analisa.

Ele propõe que os jogos sejam aproveitados para desenvolver reflexão. “Nesse contexto, o professor não pode mais ter a postura de trabalhar só conteúdo e ser o dono da verdade. Ele vai mediar, fazer pensar e conhecer outras coisas”, afirma.

 

Age of Empires

 

Outra experiência promissora acontece em Belo Horizonte (MG), onde o professor Eucídio Arruda usa o Age of Empires, um jogo de estratégia com elementos de História, em suas aulas. “Apliquei esse jogo em escola pública não para ensinar história, mas para que os alunos pudessem entender algumas operações do raciocínio em História. Eu observo eles jogarem, depois converso com cada um a respeito de suas estratégias e teço considerações a partir do que respondem”, explica.

Ele conta que a primeira versão do Age of Empires tinha uma idéia mais eurocêntrica, em que os índios eram amigos dos europeus. Na segunda, os índios resistiam, o que permite encarná-los no jogo para tentar mudar a história. Dessa maneira, ele afirma que o jovem pode construir a narrativa e manipular a história, ver diversas possibilidades e, assim, entender melhor a disciplina.

Eucídio Arruda usa ainda outros games em suas aulas, como o SimCity 4, “para abordar a ocupação do espaço, discutir mudanças na cidade, estruturas, crescimento econômico” e o Civilization 2 e 3, “para trabalhar política, como se relacionam as políticas pacifistas e bélicas, e o impacto das estratégias políticas na sociedade”.

Contudo, ele afirma que é necessário ter cuidado para não transformar jogo em aula: “Eles [os alunos] gostam de jogar, então o jogo tem que ser livre. Para isso, não pode ser usado como conteúdo, não pode fazer perguntas a partir do conteúdo do jogo.”

Fronteiras ultrapassadas
Para Roger Tavares, professor de projetos em games do curso de interfaces digitais do Senac, “o game educativo é muito limitado ao lugar da escola. Saindo da escola, ele vai jogar o que gosta” e destaca como um dos fatores mais importantes do uso de games comerciais é a possibilidade de o processo educativo continuar na casa do aluno. “Com os games que o aluno gosta, ele não vai fazer essa separação de que lugar de aprender é na escola e lugar de se divertir é fora. Ele vai fazer os dois ao mesmo tempo, dependendo da abordagem que o professor mostrou para ele”.

 

Saiba mais sobre os jogos citados nesta reportagem:

 

Dentro do contexto de aproveitamento de games comerciais para estimular a reflexão dos estudantes, Edson Pfutzenreuter propõe o seu uso como aquecimento. “O professor às vezes chega na sala e já joga o assunto. Mas ele também pode proporcionar uma vivência a partir do jogo e, assim, inserir o tema a ser discutido. Para isso podem servir até mesmo os games de violência gratuita”, sugere.

Jogos bons e ruins

Uma tônica entre os educadores entrevistados pelo Instituto Claro é a ideia de que todos os jogos têm potencialidades educativas, sejam eles desenvolvidos com esse objetivo educativo ou não.

Roger Tavares e Edson Pfutzenreuter comparam o uso de games em sala de aula ao uso de vídeos, com o qual a maior parte dos professores já está mais ou menos familiarizada, e indicam que, da mesma maneira, os jogos também devem ser filtrados e discutidos. “Claro que também há jogos ruins, como na TV e no cinema também há coisas ruins. O bom jogo tem que divertir, instigar, fazer o jogador se sentir participando, e tem de ser interessante na trama e na dinâmica”, afirmou Edson. Para ele, se o professor não tiver muito conhecimento em relação aos games que seus alunos jogam, ele pode e deve conversar sobre o jogo, pedir que os alunos ensinem, que joguem para que ele veja como é. “O que não pode é tentar ignorar os jogos”, diz.

 

 

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