A escrita espelhada é quando a criança escreve letras e números com inversão da orientação espacial, como se estivessem refletidos em um espelho. Exemplos comuns são escrever a letra p como q ou b como d.
“Ela aparece normalmente por volta dos quatro aos sete anos de idade, entre a educação infantil e o início da alfabetização”, explica a psicopedagoga Greice Kelly Reis Gama Porfirio.
“Especialmente porque é um momento no qual a criança ainda está construindo a orientação espacial, a lateralidade, a percepção visual, a consciência dos símbolos, a associação entre grafema e fonema e a automatização da escrita. Com a experiência e a consolidação da alfabetização, essas inversões tendem a diminuir”, contextualiza a psicopedagoga e neuroeducadora Roberta Isquerdo.
A escrita espelhada, isoladamente, não representa um diagnóstico de dislexia, de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ou outros.
Crianças em processo de alfabetização podem apresentar inversões mesmo tendo um desenvolvimento completamente esperado.
“Durante a alfabetização, o cérebro precisa aprender algo bastante sofisticado: reconhecer que a orientação de um símbolo pode mudar completamente sua identidade”, explica Isquerdo.
“Isso é particularmente interessante porque, no mundo dos objetos, reconhecer algo independentemente de sua orientação é útil. Uma cadeira continua sendo uma cadeira se estiver virada. Já na escrita, ‘b’ e ‘d’ são símbolos diferentes justamente por causa da orientação. A criança necessita construir essa representação de maneira progressiva”, adiciona.
Sinais que merecem atenção
Contudo, é importante diferenciar inversões ocasionais, muito comuns na alfabetização, de um padrão persistente que interfere significativamente na leitura e na escrita”, diz Isquerdo. É preciso se atentar para o caso de a escrita espelhada vir acompanhada de problemas na consciência fonológica, reconhecimento de palavras e correspondência entre letras e sons.
“Se há dificuldade na leitura e na escrita e isso está impedindo a criança de avançar em seu processo de alfabetização, aí é o momento de indicarmos uma avaliação para identificar se existe um transtorno presente ou se a criança possui alguma dificuldade na aprendizagem”, afirma Porfirio.
Entre as inversões mais comuns durante a escrita, Isquerdo aponta escrever b como d, p como q, w como m e u como n. Já os números mais invertidos geralmente são 2, 3, 5, 6 e 9.
“Mas é importante não transformar essa lista em uma regra rígida. A frequência varia de criança para criança”, alerta ela.
Estratégias pedagógicas
Entre as estratégias pedagógicas que ajudam a reverter o problema, Isquerdo cita não apenas trabalhar a cópia das letras no sentido correto, mas promover atividades que envolvam diferentes sistemas sensoriais e cognitivos, como:
- Exploração tátil das letras;
- Atividades de percepção visual;
- Associação entre som, letra e movimento;
- Comparação entre letras semelhantes;
- Atividades de orientação espacial;
- Construção das letras com diferentes materiais;
- Leitura e escrita em situações significativas; e
- Repetição com variação, em vez de exercícios mecânicos intermináveis.
“É importante não fazer a criança decorar simplesmente ‘b é barriga para um lado’. O objetivo é construir uma representação estável da letra”, recomenda Isquerdo.
Já Porfirio indica habilidades para ajudar a criança a perceber de forma natural que escreveu invertido.
“Então eu gosto de trabalhar orientação espacial, percepção e discriminação visual, consciência corporal, direcionalidade, ou sejam, tudo que faz a criança perceber direita, esquerda, em cima e embaixo. Isso é mais importante do que apenas ficar corrigindo a criança e avisando que ela escreveu ao contrário”, recomenda Porfirio.
“Vale também trabalhar primeiro as letras com eixo central, por exemplo, A-I-O-U”, complementa Isquerdo.
Acolhimento da criança
Entre os cuidados que o professor deve ter com o estudante que apresenta o problema, o principal é não constrangê-lo.
“Evite frases como ‘você está escrevendo tudo errado’ ou ‘presta atenção, você já deveria saber isso’”, exemplifica.
“Também é importante observar a frequência das inversões, acompanhar a evolução ao longo do tempo, não comparar a criança com os colegas, evitar o excesso de cópia e oferecer modelos visuais claros”, lembra Isquerdo.
A seguir, confira seis atividades que ajudam a trabalhar a escrita espelhada com os alunos!
1) Letras na areia
A criança desenha a letra com o dedo na areia, farinha, espuma ou outro material sensorial enquanto verbaliza o som correspondente.
“Essa atividade associa movimento, visão, tato e som”, aponta Isquerdo.
2) Caça às letras
Espalhe várias letras, incluindo pares como b/d e p/q. Peça que a criança encontre determinada letra e depois diga seu som. “Depois, aumente a dificuldade pedindo: ‘Encontre todas as letras b e coloque em um grupo’”, orienta Isquerdo.
3) Detetive das diferenças
Apresente pares de letras: b – d, p – q e m – w. A criança precisa observar e explicar o que muda entre elas. “Isso trabalha discriminação visual sem transformar a atividade em simples cópia”, comenta Isquerdo.
4) Construindo a letra
Use massinha, palitos, barbante ou blocos para construir letras. “Depois de montar, a criança pode passar o dedo pelo traçado e produzir o som”, recomenda Isquerdo.
5) Corpo-letra
Transforme a orientação espacial em movimento. Por exemplo, faça a criança construir uma letra com o próprio corpo ou utilizar o braço para reproduzir o movimento da escrita. “Depois, associe o movimento ao som da letra”, orienta esquerdo.
6) Jogo de igual e diferente
Apresente uma sequência de formas, cores ou objetos e peça para que o aluno a repita. Em seguida, altere apenas uma peça e questione a criança sobre o que mudou. “O recurso ajuda no desenvolvimento da percepção visual e da atenção”, explica Porfirio.
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Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images