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02.10.09
Por Giulliana Bianconi
Márcio Pereira da Silva
Mesa do debate sobre gerações interativas, em São Paulo
Em países desenvolvidos, subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. No hemisfério Norte ou no Sul. Não importa de onde se esteja falando. A disposição ao uso das novas tecnologias de informação e comunicação pelas crianças e jovens é uma realidade em qualquer lugar, desde que eles tenham acesso às mesmas.
Esse é um ponto destacado ainda nas páginas iniciais de uma pesquisa recente realizada pela Universidade da Navarra, que se dispôs a avaliar a relação de toda uma geração com as telas digitais. Embora o foco do trabalho tenha sido países da América Latina, o estudo mostra um panorama que representa hábitos gerais e alerta pais e educadores, estejam eles em qualquer país que seja, sobre a necessidade de orientar crianças e jovens sobre o uso das telas digitais.
O diferencial dessa pesquisa é que ela foi pensada para ser replicada em programas de educação. E, portanto, relata "problemas" cujas soluções podem ser facilmente deduzidas, a exemplo de um dos tópicos que identifica, em alta porcentagem dos entrevistados, o hábito que os pais têm de colocar televisão e computadores no quarto dos filhos, o que dificulta uma mediação, mesmo leve, dos programas vistos e dos softwares usados pelos menores.
"Gerações Interativas: O Uso Responsável das Telas Digitais" é o tema desse estudo que, em São Paulo, deu origem a um evento em que foram debatidos, por uma tarde, dados e opiniões de especialistas. As respostas da pesquisa, realizada com 80 mil crianças e jovens de sete países (Argentina, Brasil, Chile Colômbia, México, Peru e Venezuela), mostraram que os responsáveis diretos pela educação (escola e pais, principalmente) não acompanham de forma significativa o mundo conectado por onde essa geração transita.
Convidado para o debate, Rodrigo Nejem, um dos coordenadores do Safernet, organização focada no uso consciente da internet, voltou-se para um ponto fundamental: a educação tem de ser baseada na nova dinâmica das relações humanas estabelecidas pelas tecnologias. "Se um pai antigamente orientava o filho a não aceitar balas de estranho, a não sair da escola com uma pessoa que não conhece, hoje tem que ampliar isso para a realidade virtual e dizer que não se deve aceitar convites de estranhos para conversas nem abrir e-mails de desconhecidos", disse.
O acompanhamento dos pais em relação à navegação dos filhos ainda está longe de atingir números desejáveis nos sete países analisados pela pesquisa. No universo geral, mais de 1/3 das crianças e jovens afirmou que durante a navegação não existe qualquer interesse dos pais pelo que estão fazendo. A forma mais reconhecida pelos entrevistados de mediação realizada pelos pais é a pergunta "clássica": "O que você está fazendo na internet?".
Márcio Pereira da Silva
Alunos conectados, durante o evento
O Brasil figura com a segunda pontuação mais alta em ausência de mediação (46%), ficando atrás apenas da Argentina (57%). Rodrigo Nejem explica que os pais têm de ir além de uma simples pergunta e têm de entender como os filhos se relacionam com a internet, assim como com todas as outras tecnologias que utilizam, para, então, conversar sobre riscos que ali existem. "Os pais não precisam dominar a tecnologia no mesmo nível dos seus filhos para conseguir orientá-los", destacou Âmbar de Barros, diretora do Núcleo Infanto-Juvenil da TV Cultura e também participante do debate.
Fundadora da ANDJI (Agência de Notícias dos Diretos da Infância), Âmbar, 51 anos, afirmou que o grande desafio para os educadores é "trabalhar com as diversificadas novas tecnologias quando somos seres analógicos". Concordando com Nejem, ela afirmou que os pais e professores não precisam ter a pretensão de possuir os mesmos conhecimentos que os seus filhos sobre tecnologia. Diz até que isso não é possível num cenário amplo, pelo fato de essas pessoas terem crescido em um outro ambiente: "Nos anos 60, eram poucas as famílias que tinham TV em casa". Mas, na opinião dos especialistas presentes no evento, isso não é justificativa para fazer vista grossa ao uso dessas tecnologias pelas crianças e jovens.
Na tentativa de combater essa indiferença, a TV Cultura, a Safernet e alguns outros parceiros montaram uma campanha visando conscientizar a sociedade da necessidade de se buscar uma navegação segura. Segundo as instituições, a campanha começará a ser veiculada em poucas semanas, contará com peças para rádio, TV e buscará a participação dos próprios jovens. A ideia é que eles contribuam para a iniciativa com vídeos sobre os riscos que a internet oferece. A campanha objetiva conversar com toda a sociedade, pois a intenção é que todos sejam "militantes da causa". Entretanto, é dada uma atenção especial à relação dos educadores com as crianças e jovens, pois foi comprovado que aí existe um buraco que necessita ser coberto. De acordo com a pesquisa Gerações Interativas, a participação dos pais na "ciberaprendizagem" é de apenas 8% no universo investigado.
Não vale se preocupar apenas com a internet...
Dominar a navegação e saber por onde a criança e o jovem "passeiam" no universo virtual são pontos importantíssimos, mas estão longe de serem os únicos cuidados necessários para lidar com as gerações interativas, ou com os nativos digitais, como se queira chamar.
As telas digitais não se resumem aos computadores conectados. Englobam celulares, videogames e televisão. Sim, a TV é antiga, pode não ser considerada desafiadora para educadores, mas é um dos diversos instrumentos que compõem a "caixa de ferramentas" dos nativos digitais. Um dos meios que eles usam para se informar. Durante o debate sobre a geração interativa, promovido pelo programa Educarede, em São Paulo, foi colocado que a TV e o videogame são vistos pelos jovens como fontes de informação e educação, no mesmo plano.
Para os pais, é importante saber, por exemplo, que jogos de videogames piratas normalmente não contêm referências visíveis sobre a sua temática ou idade recomendada pelos fabricantes. A partir disso, torna-se relevante monitorar a procedência dos games que surgem em casa emprestados por amiguinhos. De acordo com a pesquisa da Faculdade de Navarra, mais de metade dos entrevistados declarou que possui jogos piratas e, ainda, 18% disseram que todos os jogos que possuem eram piratas.
O celular apresenta outra lista de riscos. Não se pode ignorar uma tela tão presente na vida dos jovens. Para se ter uma idéia, 82,2% dos entrevistados entre 10 e 18 anos disseram possuir celular. Por mais que os pais tenham de ter o cuidado de respeitar a privacidade dos filhos, observar o comportamento deles ao atender as ligações é uma das forma de acompanhar o uso daquele instrumento pelo jovem. Há casos em que estudantes sofrem bullying pelo celular e, intimidados pelo agressor, não revelam à família o que está acontecendo. A percepção aguçada dos pais pode ajudar a desvendar a situação e a resolver o problema.
Confira algumas dicas do uso seguro das telas digitais elaboradas pelo Educarede
Juliana M. Cruciani diz:
Inúmeras questões poderiam ser discutidas sobre o presente artigo, mas como o foco foi dado ao distanciamento do professor em relação às novas/velhas tecnologias, acredito que o primeiro passo era revermos os cursos de formação de professores que, ainda hoje, deixam muito a desejar no quesito tecnologias X sala de aula.
Marília Alencar diz:
Importante essa reportagem para pais verem que não entender tanto qto o filho de tecnologia não significa que eles não podem educar essa geração que se comunica pela tecnologia. Mais estudos como esse deveriam ser feitos com frequencia e muito divulgados!!!