Poeta e autora de literatura infantojuvenil, Roseana Murray construiu uma trajetória marcada pela delicadeza e pela valorização do imaginário. Seu primeiro livro, “Fardo de Carinho”, escrito para seu filho mais velho, André, foi publicado em 1980. Desde então, ela completou 46 anos de carreira com aproximadamente cem títulos publicados.
“A autora passeia pelo cotidiano e pelo imaginário da criança. Seu trunfo, para o deleite infantil e juvenil, é brincar com as memórias e emoções”, analisa a mestra em Linguagem e Ensino Gilquele Gomes de Araújo.
Doutor em Letras, Felipe Lacerda de Melo Cruz aponta como característica da autora a capacidade de mesclar poesia e vida cotidiana, atribuindo lirismo a elementos comuns do dia a dia.
“Em seus versos, a autora ressignifica elementos triviais, subtraindo-lhes a carga de cotidianidade e atribuindo-lhes a dimensão do sublime. Ela renova semanticamente palavras desgastadas, de uso corrente, pelo viés do fantástico. Assim, convida o leitor a reinaugurar seu olhar para o mundo, fazendo com que enxergue, poeticamente, nas coisas ao seu redor, mais do que a realidade mostra”, destaca Cruz.
“Isso aparece no conjunto de títulos da autora: ‘Receitas de olhar’ (1997), ‘Lições de astronomia’ (1985), ‘Manual de delicadeza’ (2001) e ‘Recados do corpo e da alma’ (2002)”, acrescenta.
Natureza e afetos
Araújo aponta a natureza como tema recorrente nas obras. “Lua, céu, mar, vento, chuva, flores, árvores, ondas, trovões e muitas outras referências invadem quase todo poema”, apresenta.
Já Cruz lembra que inúmeros livros da autora foram criados em parceria ou em homenagem a parentes, amigos e outros entes queridos.
“’Lá vem o Luís’ (2011) foi escrito para seu primeiro neto; ‘Retratos’ (1990) tem personagens inspirados em pessoas de sua família; ‘As três velhinhas tão velhinhas’ fazem referência à mãe e às tias de Roseana, Cecília e Alice; ‘Um avô e seu neto’ reproduz a relação entre o pai e o filho mais velho de Roseana, André Murray; ‘Poemas e Comidinhas’ (2008) foi preparado em parceria com André, que é chef de cozinha; ‘Caixinha de música’ (2004), com seu filho músico Guga Murray; ‘Fio de lua & raio de sol’ foi escrito com sua nora; ‘Residência no ar’ (2007) e ‘No cais do primeiro amor’ foram ilustrados por sua irmã, a artista plástica Evelyn Kligerman, entre tantos outros”, aponta Cruz.
Atividades para cada etapa de ensino
Para Araújo, apresentar as obras aos alunos da educação básica traz benefícios não apenas para a fluência leitora, mas também para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, como empatia.
Graduada em Letras e coordenadora pedagógica da rede estadual de ensino de São Paulo, Karla Reis Martins recomenda que as obras de Roseana Murray sejam trabalhadas ao longo do ensino fundamental para abordar gêneros textuais. Os livros “Receitas de olhar” e “Classificados poéticos” podem ser utilizados nessa proposta.
“A literatura seria um ponto de partida atrativo para atividades com gêneros textuais, cuja familiaridade é importante para o desenvolvimento de habilidades de comunicação”, recomenda.
“Os poemas desses livros subvertem os gêneros textuais que emulam, reconstruindo-os pela ótica da poesia e retirando-lhes o uso cotidiano utilitário. Roseana atrai o leitor com uma forma textual de uso prático e corriqueiro para lançá-lo em uma experiência literária repleta de sensações e emoções”, opina Cruz.
Martins utilizou o livro “Classificados Poéticos” (1984) para trabalhar o gênero classificados com alunos do sétimo ano do ensino fundamental.
“Depois de apresentar o gênero poético, o professor pode questionar os alunos sobre a que gênero textual os textos se assemelham e por quê. É importante instigar o aluno a pensar sobre as diferenças e semelhanças entre os poemas e os classificados — quais são as propriedades de cada um, dentro do contexto em que são escritos e para quais tipos de leitor”, completa.
Já com o primeiro ano do ensino médio, Araújo aliou o tema dança ao poema “Receita de dançar no meio do céu”. Ela ainda recomenda, para todas as etapas, rodas de leitura com escuta ativa e a criação de performances variadas.
“Por exemplo, na obra ‘Fábrica de poesia’ (2008), há o poema ‘Bolha de sabão’. Durante a leitura, pode-se trabalhar o sensorial e o imaginário da criança com bolhas reais. Ainda na mesma obra, um poema diz: ‘Fabrico uma caixa mágica para guardar o que não cabe em nenhum lugar’. Pode-se sugerir que cada aluno traga algo especial que gostaria de guardar para sempre e promover um momento de socialização”, conclui.
Conheça sete livros da autora para apresentar aos alunos:
Classificados poéticos (1984)
Livro em que a autora recria o gênero “classificados” sob a ótica da poesia. Anúncios que, em vez de vender produtos ou serviços, oferecem sonhos, sentimentos e situações inusitadas
Lições de astronomia (1985)
Por meio da poesia, a autora explora a beleza e os mistérios do universo celeste.
Receitas de olhar (1997)
Inspirado no formato de receitas culinárias, o livro propõe “modos de preparo” para enxergar o mundo com sensibilidade.
Recados do corpo e da alma (2002)
A obra explora a dimensão afetiva por meio de temas como amor e corpo.
Pera, uva ou maçã? (2005)
O livro reúne poemas que celebram imaginação, memória e sonhos
Poemas e comidinhas (2008)
Resultado de uma parceria com seu filho, chef de cozinha, a obra mistura poesia e culinária.
Quem vê cara não vê coração (2013)
“Nessa obra, a autora parte de 24 ditados populares para recriá-los poeticamente”, aponta Cruz.
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